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Repertório sofisticado para crianças
Tribuna do Norte - 08/11/2014



O show “Crianças Crionças”, apresentado hoje, por Cid Campos no espaço Tenda dos Escritores, às 15h, é pensado não apenas para os pequenos. Muitos dos poemas infantis musicados que fazem parte do repertório são de autores clássicos da literatura infantil, como Edward Lear (1812-1888) e Lewis Carroll (1832-1898), em transcriações do poeta Augusto dos Campos, e ultrapassam qualquer fronteira de tempo e limite de idade.

Em se tratando dos infantes, Cid Campos sabe: as crianças da era digital têm mais possibilidades e um universo de informações bem diferente da infância que ele viveu, nos anos 1960. Por isso mesmo é um desafio prender a atenção delas.

“Eu acho que a coisa realmente está muito diferente, com o advento da internet, dessa recente evolução tecnológica, isso acabou trazendo uma acessibilidade de informações pra todos nós, inclusive as crianças estão municiadas de recursos. Elas podem ser mais seletivas e exigentes por conta desse conhecimento. É por isso que a poesia “nonsense”, sofisticadíssima e traduzida magistralmente pelo Augusto (é assim que ele se refere ao pai, Augusto de Campos), ganha diversos outros recursos sonoros e visuais nessa apresentação.

A versão é pocket, mas, nem de longe, minimalista. Cid Campos fica com voz e violão e estará ladeado de outros três músicos: Ricardo Pesci (sanfona), Rogério Botter Maio (baixo) e Alexandre Damasceno (bateria). Quando comparado ao grupo que fez temporada de São Paulo, esse realmente parece pequeno. Lá eram 15 pessoas em cena, inclusive havia participação de atores. Eles subiam ao palco para uma ou outra performance e dividiam a cena com sete músicos.

“Adaptamos algumas coisas pra poder viajar com o show, mas mantivemos outras que são muito interessantes como a projeção de imagens, vídeos e das letras de alguns poemas, para que o público vá acompanhando”, explica, abrindo parênteses pra destacar que considera todas essas ferramentas, mas acredita que nunca deve-se abandonar a contação de histórias. “É muito importante manter essa ligação entre avós e netos.”

Algumas das imagens projetadas são as que acompanharam os poemas originais de Lewis Carroll. O recurso ameniza, pra uma certa faixa etária, a compreensão. Pra outras é preciso explicar como sempre acontece quando é cantado o poema “O Mocho e a Gatinha”. “Claro que quase nenhuma criança sabe que mocho é coruja. Eu faço algumas brincadeiras, explico e começo a cantar como um animal se apaixonou pelo outro. Afora isso não há nenhuma dificuldade de compreensão porque as transcriações têm uma métrica muito precisa.”

Além do universo dos animais, o show faz as crianças navegarem pelo universo dos vegetais e dos objetos aos quais são conferidas características humanas. Tudo é tratado com humor e lirismo e aguça a curiosidade dos pequenos. A suavidade impera nas interpretações. E todas guardam fortemente a originalidade da escrita e têm seus refrões e rimas gravados fortemente, para que todos participem, cantando junto.

O trabalho se estende ainda à obras de autores brasileiros de gerações mais novas, também identificados com a exploração dos mais modernos recursos da linguagem poética: Haroldo e Augusto de Campos, Paulo Leminski, Luis Turiba e Walter Silveira.

O repertório, inclui, entre outros, os poemas “Canção da Falsa Tartaruga”, “Alface” e “Criança Crionça”, gravados também por Adriana Calcanhotto nos Cds/dvds Adriana Partimpim, Partimpim 2 e Partimpim 3. Ainda serão apresentadas algumas músicas do novo CD infantil, que Cid está gravando, como “As Borboletas” (já gravada por Adriana Calcanhotto e Gal Costa) e a inédita “O Marimbondo”, ambas em parceria com Vinicius de Moraes.

Influências culturais

Pode-se dizer que Cid Campos é um afortunado. Quando criança tinha na sala de casa, em muitos encontros, grandes nomes como Gal Costa, Torquato Neto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Walter Franco e Rico Barnabé. Todos amigos de Augusto de Campos. “Realmente pra mim foi um privilégio poder ter presenciado algumas dessas reuniões animadíssimas. Eu devia ter uns 12 anos, foi meu primeiro contato com a música. Depois disso é que veio o envolvimento, não tinha como não acontecer; os Novos Baianos estavam na minha casa quando eu chegava da escola”, lembra.

Cid cita o pai, Augusto de Campos, e Caetano Veloso como suas maiores fontes de inspiração. “O Caetano foi o primeiro a produzir o que eu ouvi e entendi como uma obra prima. Até hoje fico impressionado com composições como ‘Pulsar’. De certo modo, a Tropicália e mesmo modernismo de Oswald de Andrade se encontraram com o concretismo. Eu me identifico com a poesia concreta e acho que o concretismo também teve grande influência sobre Caetano, Gil e Tom Zé.”

Poesia nas escolas

A discussão sobre poesia dentro das escolas é uma bandeira antiga de Campos. Ele acredita que já houve alguns avanços e cita que, antes, esses estudos ficavam restritos ao nível superior e de pós-graduação.

“Essa é uma forma de trazer as crianças e instigar a leitura, já que a coisa está muito mais pra internet do que pra o livro. Os leitores de poesia quantitativamente sempre foram e são muito inferiores que os de romances e outros tipos de escrita, mas o caminho vai sendo traçado e continuamos caminhando. A internet, no caso da poesia concreta, trouxe muitos benefícios porque, desde o surgimento, ela já previa um pouco a questão da visualidade da palavra. Os primeiros trabalhavam com carbono colorido, sobreposição. Hoje você abre um programa no computador e faz tudo isso muito facilmente. Então, eu acho que a gente pode aproveitar melhor o recurso. Vamos lutar pra isso, É sempre bom expandir”, finaliza.
     
 
 
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