TEXTOS
   
Palavra "nutre" arranjos de Cid Campos
Janaina Fidalgo

A palavra que fala e canta
Ricardo Aleixo

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A palavra que fala e canta
Ricardo Aleixo - http://jaguadarte.zip.net - 2005



Desde o título, uma sutil inversão da expressão “palavra falada”, até o requintado repertório e os arrojados arranjos, mais o projeto gráfico assinado por Augusto de Campos, tudo em Fala da palavra, novo CD do compositor e baixista Cid Campos, figura como um elegante (sem deixar de ser eletrônico e gingante) cumprimento à beleza numa época em que a cultura é “representada como se fosse piada/(...)/ por cada figura sem compostura”, como cantofalou Itamar Assumpção em seu “Cultura Lira Paulistana”.

O novo disco assinala a chegada de Cid Campos à definição de um estilo composicional indissociável de seu desempenho como vocalista e instrumentista. Escrevo vocalista, e não cantor, com o fim de apontar o quanto o uso da voz, no caso de Campos, relaciona-se intimamente ao seu modo de tocar o baixo. Há algo de hendrixiano em sua performance vocal/instrumental: um Jimi Hendrix que tivesse adicionado às raízes blueseiras de suas entoações elétricas o caráter rizomático do canto quase falado de João Gilberto.

E é aí, penso, que Fala da palavra complementa o excelente disco anterior do artista, No lago do olho, de 2001, que já expõe com nitidez a opção de Cid pelo tensionamento da relação palavra/som, e o magistral trabalho em colaboração com Augusto de Campos, registrado no CD Poesia é risco e no espetáculo homônimo, de 1995 – sem esquecer as demais obras coletivas, com diferentes parceiros, que mereceriam artigo à parte.

Em todos os trabalhos de Cid Campos é notável o ajuste do som dos instrumentos ao dos vocábulos, num procedimento que põe no seu devido lugar aquelas canhestras tentativas de musicalização de poemas em que a sonoridade intrínseca das palavras é solapada em função da imposição de uma melodia estranha à microestrutura verbal. Da mesma forma, esses experimentos acabam por fazer, indiretamente, a crítica da pressa e da imperícia que predominam na feitura da maior parte dos CDs de poesia lançados recentemente no Brasil, numa voga sem vigor nem arte, em que “barulhinhos” digitais capturados na internet ou em sabe-se lá quais fontes cumprem o papel acessório de “fundo sonoro” ou “musical”.

Conta muito, também, em favor do projeto de Cid Campos, o fato de ele, que também manipula com competência engenhocas eletrônicas como teclados, samplers e processadores de voz, sempre acercar-se de músicos extraordinários, como o guitarrista e violonista Felipe Ávila e o baterista e percussionista Zé Eduardo Nazário, que, no novo CD, tocam em praticamente todas as músicas. Não tem como dar errado. De “Fala da palavra”, a primeira faixa, a “Sem saída”, que fecha o disco, o ouvinte é conduzido através de um labirinto poético-sonoro que permite supor o quanto há ainda por ser explorado criativamente no âmbito da canção (popular?), entre nós.

Além de textos produzidos pelo próprio compositor, destacam-se em Fala da palavra parcerias com Walter Silveira, Arnaldo Antunes, Ronaldo Azeredo, Walter Franco, João Bandeira, Lenora de Barros e Augusto de Campos (em dois poemas e nas recriações de um poema permutacional de Quirinus Kuhlman – século XVII – e de “O pulso das palavras”, de Vladímir Maiakóvski). Atenção especial para a parceria com Lenora, “Preço da palavra”, executada sobre uma pulsante base rítmica, que atualiza com precisão o problema da poesia contemporânea, emudecida pela mercancia reinante: “Ganhar a palavra dinheiro/(...)/ Roubar a palavra dinheiro/(...)/ Trocar a palavra dinheiro por dinheiro”.

Tanta invenção faz com que a poemúsica “Sem saída” (escrita a partir de um poema “ilegível” de Augusto de Campos, publicado no livro Não, de 2003, e reproduzido no encarte do CD junto com sua versão “legível”, isto é, linear) soe saborosamente irônica: “a estrada é muito comprida/ o caminho é sem saída/ curvas enganam o olhar/ não posso ir mais adiante/ não posso sair do lugar/ levei toda a minha vida/ nunca saí do lugar”.
     
 
 
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