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CD batalha pela salvação da língua
Arthur Nestrovski - Folha de São Paulo - 17/02/2005



O TODO é maior do que a soma das partes, mas aqui de um modo especial. Mais do que um disco de canções - 13 delas, cada uma com suas virtudes particulares - "Fala da Palavra" é o disco que define um repertório, desbravado há anos por Cid Campos.

A abertura do disco pode soar estranha, para os que já conhecem o seu trabalho: será mesmo um berimbau? Mas bastam alguns segundos para esse berimbau ser integrado a um campo de outra natureza, um xadrez de texturas eletrônicas. O gesto é claro e forte; e serve de chave para o disco, onde a música fala, com sons e palavras, num registro que é ao mesmo tempo de vanguarda e pop, cosmopolita e local, brasileiro e paulistano.

Aqui, como no primeiro disco, "No Lago do Olho" (2001), Cid faz parcerias com seu pai, o poeta Augusto de Campos, e outros nomes direta ou indiretamente ligados ao núcleo da poesia concretista: Arnaldo Antunes, João Bandeira, Lenora de Barros, Ronaldo Azeredo, Walter Franco, Walter Silveira. É um disco para ser lido, tanto quanto ouvido, já que tudo aqui existe para celebrar o casamento de letra e música.

Não que seja um disco, entre aspas, "difícil". Até pelo contrário. Tudo o que Cid faz respira a brisa fácil de uma música, sem aspas, popular. Mesmo um aparentemente incantável poema em prosa de João Bandeira ganha ares de balada; e um poema visual como "A Água", de Azeredo, fica gravado imediatamente na memória, com sua líquida repetição de acordes descendentes.

"Sem Saída", parceria com Augusto, fecha o disco num blues, com destaque para o solo de violão de Felipe Avila - que toca espetaculares guitarras, e forma um ótimo trio com Zé Eduardo Nazário (bateria e percussão) e Cid (baixo, teclado e sampler, além da voz). É um outro balanço de uma nova bossa, em que frases simples e harmonias minimalistas criam o encantamento próprio de canções não-narrativas, não-descritivas, sem roteiro dramático.

Certa proximidade com o rap é mais da superfície do que do fundo. Quer dizer: da superfície da fala cantada, não do fundo de propósitos. A briga de Cid tem outro viés, herdeira de outras batalhas pela salvação da língua, contra o excesso e contra a falta. Alguém dirá que a gama de sentidos, afinal, soa restrita, nessa fala da palavra falando da palavra. Mas que essa grande tradição da vanguarda venha se deixar ouvir assim, numa dezena de músicas despretensiosas, só reforça o insólito caráter da canção no Brasil, onde a poesia se canta como em nenhum lugar.
     
 
 
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